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Vizinho Vinhateiro: Onde a Tradição do Dão Encontra o Mundo

Uma visita ao pequeno projeto artesanal de Paul Chevreux e Charlotte Hugel, em Farminhão — onde o vinho se faz com mãos, coração e respeito absoluto pelo terroir.



Tudo começou no Mercado 2 de Maio, em Viseu, durante o evento "Dão no Mercado" — uma celebração de primavera que reúne produtores, gastronomia e música num só lugar. Foi lá que tive a oportunidade de conhecer os vinhos da Vizinho Vinhateiro pela primeira vez. Provei, conversei, ouvi falar daquele projeto pequeno e artesanal e achei tudo muito interessante. Curiosa que sou, quis ver de perto como é feita a produção deste vinho. E lá fui eu.


Há lugares que nos recebem com um silêncio honesto. Sem pompa, sem roteiro turístico ensaiado. A Vizinho Vinhateiro, instalada na Quinta da Roda da Quintã, em Farminhão — pequena aldeia entre Viseu e Tondela, no coração da região do Dão — é exatamente assim.


Quando chegamos para o tour básico, fomos recebidos pelo próprio Paul Chevreux, o rosto e as mãos por trás do projeto. Francês de origem, Paul é daquelas pessoas que fala de vinho não com discurso de marketing, mas com a naturalidade de quem fala de casa. Ao seu lado, Charlotte Hugel — sim, 13ª geração da lendária família Hugel, de Alsace — partilha a visão e a condução deste projeto que nasceu em 2021.


O nome Vizinho Vinhateiro é uma homenagem direta à tradição local: "vizinho" significa vizinho, e "vinhateiro" é aquele que trabalha as vinhas e delas faz vinho. Naquela terra, muitos vizinhos ainda produzem o seu próprio vinho para consumo pessoal. Paul e Charlotte quiseram fazer parte dessa comunidade — não como estrangeiros que chegam para impressionar, mas como vizinhos que respeitam.


Paul conduz-nos pela adega — um espaço que respira história. Trata-se de uma casa senhorial do início do século XVI, outrora em estado de ruína, que o casal restaurou com respeito pela memória original. Lá dentro, os lagares de granito centenários, as cubas de cimento e a frescura natural do ambiente transportam-nos para um tempo em que o vinho se fazia com calma e intuição.



É por este cenário que Paul nos guia, explicando cada etapa do seu processo artesanal. Mostra-nos os lagares de granito onde faz a pisa a pé — método ancestral de extração que ele teima em manter, mesmo sabendo que é mais trabalhoso. A explicação é simples: não há máquina que replique a delicadeza e a leitura que os pés humanos oferecem ao mosto. É um gesto de fé no método tradicional e de recusa do atalho industrial.


Fala-nos também da forma como trabalham a terra lá fora — agricultura orgânica, ferramentas tradicionais, tracção animal e princípios biodinâmicos.

"Não estamos aqui para reinventar o Dão. Estamos aqui para ouvir o que ele nos diz."

A filosofia de mínima intervenção está em cada canto: sem filtração, sem clarificação, apenas um mínimo de sulfitos adicionado. O que se vê na adega é a tradução física dessa filosofia — nada de excessos, nada de artifícios. Só o mosto, o tempo e o granito.


Depois do tour pela adega, vem o momento que todos esperamos: a degustação. E aqui Paul não poupa — serviu-nos todos os vinhos, incluindo alguns ainda em estágio, diretamente da barrica.


Provar um vinho que ainda está a dormir na madeira é uma experiência única. Não é o produto final, não tem o polimento da garrafa — é o vinho em estado bruto, em formação, e isso torna tudo ainda mais fascinante. Paul explica o que cada vinho está a fazer ali, quanto tempo mais vai precisar, como vai evoluir. Fala com a paciência de quem sabe que o tempo é ingrediente, não inimigo.

Os vinhos que provamos logo da barrica foram: Clarete 2025, de Vagar 2025, Lagar 2025 e Tinto 2025. E de garrafa : Clarete 2024, Lagar 2023, e Tinto 2024


E sobre os vinhos prontos? São a prova de que a paciência vale a pena:


  • Vizinho Vinhateiro Tinto — o primeiro vinho do projeto. Um tinto de carácter, com a frescura e a leveza que distinguem os grandes vinhos do Dão, longe da opulência de outras regiões.

  • Vizinho Vinhateiro Clarete — aqui reside uma das grandes apostas do casal: reviver o estilo clarete histórico do Dão, um vinho que combina a estrutura do tinto com a frescura do branco, num equilíbrio raro.

  • Vizinho Vinhateiro Lagar — a expressão mais crua e ancestral do trabalho, diretamente do lagar de granito.










O que impressiona não é apenas a qualidade — é a coerência. Cada vinho conta a mesma história: respeito pelo fruto, confiança no tempo e recusa de artifícios. E provar os que ainda estão em barrica deu-nos a dimensão real do que está a ser construído ali — não é um projeto de um ano, é uma aposta de longo prazo.



Há algo que merece destaque especial: os rótulos. Paul fala-nos sobre os rótulos com orgulho evidente. São belíssimos, minimalistas e elegantes, com um design que comunica sobriedade sem ser pretensioso. Cada elemento visual foi pensado para refletir a identidade do projeto: a tradição artesanal, a ligação à terra, a dupla herança europeia de Charlotte (Alsace) e Paul (Jura/Borgonha) transposta para o solo português.


Não há excessos, não há dourados, não há barulho visual. Há a mesma honestidade que encontramos na adega — um rótulo que diz, simplesmente: "aqui está o que fazemos, com as nossas mãos".


A Vizinho Vinhateiro não é um destino para quem procura espetáculo. É um destino para quem quer compreender o vinho de dentro para fora — sentir a adega, cheirar o lagar, provar da barrica, ouvir a história de quem deixou a Borgonha e a Alsace para plantar raízes no Dão.


Paul recebe-nos como vizinho. E é esse, afinal, o significado de tudo: ser vizinho é pertencer, é partilhar, é fazer parte. Depois desta visita, saímos com a sensação de que bebemos não apenas um vinho, mas um pedaço de uma história que ainda está a ser escrita — lentamente, como manda o Dão.


Se esta história lhe despertou a curiosidade — seja pelo Dão, pelo vinho natural, pela coragem de quem deixa tudo para recomeçar numa terra estranha —, então você está no sítio certo.

Porque o mundo do vinho é isto: histórias. Histórias de gente, de lugares, de garrafas que guardam dentro de si o sol, a chuva e as mãos de quem as fez.

E há tantas outras histórias para contar.


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Porque há vinhos que se bebem. E há vinhos que se contam. Nós fazemos os dois. 🍷




 
 
 

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Rota dos Vinhos com Renata Serrano

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